quarta-feira, 24 de agosto de 2011

"Antiarte" - Duchamp





      
       A arte conceptual é o único movimento artístico levado a cabo por um só homem: Marcel Duchamp (1887-1969).
       A sua obra produziu uma espécie de revolução coperniciana no mundo da arte. Depois dos seus "ready-made" a arte nunca mais foi a mesma.
Apesar de ser o mais influente artista do século XX, lançando a tradição avant-garde na arte, a sua obra provoca ainda assim acesas disputas e é uma verdadeira dor de cabeça para os estetas.


Obras como a famosa Fonte (1917/1964), que não é mais do que um “vulgaríssimo” urinol, são ainda hoje palco de discussão e incompreensão não só por parte do grande público, mas também por alguns críticos e historiadores da arte.
   Filósofos como George Dickie dedicaram uma especial atenção aos "ready-made" de Duchamp, concebendo uma teoria sobre a arte que acomodasse tais objetos e outros do gênero — os chamados "objetos ansiosos," aqueles que nos mantêm na incerteza de os classificar como arte.



Talvez tenha sido a procura de inspiração fora dos círculos artísticos normais que possibilitou o nascimento de uma forma de arte completamente diferente. Se Duchamp tivesse sido aceite e acarinhado pelos seus colegas pintores quando procurou aceitação, talvez a revolução artística do século XX nunca tivesse tido lugar.

Ao meu ver, aos olhos de uma crítica esnobe, experiências transgressivas tipo as de Duchamp, Brossa, Warhol, , tem seu efeito estético condicionado somente ao gênio de quem os pratica. Pois só mesmo uma crítica esnobe, não raro, pretende que a obra artística exposta vá muito além daquele impacto passageiro –
Daí sim, o rancor que faz essas peças de impasse ainda serem tidas como responsáveis pelo esvaziamento da arte ou compreendidas como arte vazia. Imaginem?


Utilizando esse ponto... Por que então ainda realizar algo “com intenção estética” ou ética?
Evidentemente o argumento de que não se faz arte apenas com intenção demoliria, a princípio, tal colocação.
Mas sigo: qual o lugar para os gestos que não pretendem ser fiéis a uma ideia conformada de arte, um modelo estético definido, uma significação?

Algumas das precipitadas conclusões da crítica da “arte vazia”, revelam um desejo de que a arte em geral tome de vez um destino único ou, pior, nos antecipe os detalhes de seu percurso. Arte obvia então?

Seguindo meu ponto...É um grande erro atribuir certa crise na produção (e percepção) da arte contemporânea,  considerando-a, por exemplo, como algo definitivamente irrelevante ou insustentável.
Essas atitudes além de apreenderem a expressão artística, atentam justamente contra suas próprias ilusões e idealizações.
 Repito: e que arte teria esse direito histórico á hegemonia?
E que horror seria!

Compreendidas ou não, subentendidas ou não, ambas as operações (gesto e intenção provocadora), abertos ao fluxo das intrigas, afetos e estranhamento, ganham em ambiguidade e insolência, sujeitas, ao longo do tempo, tanto às revisões e desvios da crítica, quanto aos devotos à irreverência.

Porém, se não há sequer consenso nem unanimidade nas referências da realidade e suas representações delirantes, a não ser na impostura sutil dos símbolos e seus discursos, de que mundo se fala? que arte se denuncia como vazia? que modelo é esse de vazio?

Duchamp, na diversidade de formas que a arte assume na sua obra, defende a arte da facilidade de qualquer definição.

Dado o contexto, não quero deixar de referir que a própria natureza da arquitetura, motivada pela estética mas também pela
utilidade, pode não ser alheia à ideia duchampiana de fazer obras que não sejam "de arte", no seu afastamento estratégico de visões puramente estetizantes.

É esta impureza, enquanto forma de arte, que eu falo, no afastamento de qualquer funcionalidade, que torna pertinente reflexões a um campo mais vasto , lugar de motivações e simultaneamente, de consequências da prática artística.


"A arte é a única forma de atividade por meio da qual o homem se manifesta como verdadeiro indivíduo." Marcel Duchamp


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